
E também sinto saudade do que não existiu!O beijo apaixonado que não dei, o abraço caloroso que não senti, a declaração de amor que não ouvi, aquele passeio à tarde de mãos dadas, aquela viagem romântica inesquecível, as brigas, as reconciliações, os apelidos engraçados, os ciúmes bobos, as brincadeiras, os segredos...A saudade do que não existiu dói bastante, talvez até mais que a saudade do que existiu.A saudade do que não existiu é uma projeção do que poderíamos ter vivido, mas não vivemos; por algum vacilo pessoal ou armadilha do destino - não importa, apenas não vivemos, e não viver o que poderia ter sido vivido dói, muito.Em um poema intitulado 'Saudade', Pablo Neruda escreveu: 'Saudade é amar um passado que ainda não passou, /é recusar um presente que nos machuca, /é não ver o futuro que nos convida.', a saudade do que não existiu é isso, amar um passado ainda presente, recusar uma realidade que não nos satisfaz e não enxergar o futuro que bate a nossa porta. "Também temos saudade do que não existiu e dói bastante..."
by Carlos Drummond de Andrade



